Apenas Miúdos de Patti Smith

Este texto não é uma review convencional, mas antes uma apreciação pessoal ao livro de Patti Smith. Uma pequena reflexão sobre uma história de amor.

“Apenas Miúdos” de Patti Smith fez-me querer ser artista; fez-me escrever poemas; fez-me sonhar, viajar e relembrar amores. Com uma escrita simples, mas poética e num estilo seco, direto e objetivo, a autora abre a sua vida, o seu coração ao leitores numa memória e homenagem à sua eterna paixão e amigo do coração Robert Mapplethorpe.

Transporta o leitor para Nova Iorque dos anos 50, numa altura em que era “normal” vaguear pela cidade e em que a cidade se abria em múltiplas opções, escolhas e caminhos. Nessa encruzilhada de direções, Patti conheceu Robert e, desde esse momento, souberam que havia uma ligação para o resto das suas vidas. Maior que o amor: ou um verdadeiro amor. Aquele amor em que ambos aceitam o outro nas suas parecenças como diferenças, aceitam o outro e lutam pela felicidade e concretização de ambos. São parte um do outro sem, na verdade, o serem.

A terna descrição da autora sobre os seus primeiros anos em Nova Iorque e sobre esse amor jovem fez-me refletir na forma como olhamos a vida e como a comandamos. Patti Smith não sabia qual a escolha mais acertada para si, apenas sabia que queria ser artista e, na roleta da vida e na sua casualidade, conheceu grandes artistas. Aos poucos, e passo a passo, alcançou o sucesso. Mas esse processo só foi possível porque Patti Smith não teve medo de falhar, de tentar, de ser verdadeira. Passou fome, mas acreditou sempre que se tornaria, um dia, numa artista. Como tinha sonhado.

A leitura da sua obra recordou-me a palestra de Steve Jobs sobre ligar os pontos. A mensagem, para mim, é esta: “não importa o futuro, vive agora e o presente da forma que realmente queres, consegues e pensas que seja o melhor para ti, com autenticidade e verdade e o resto virá. Mais tarde vais conseguir ligar os pontos, mas hoje tens a oportunidade de viver”.

Existem ligações mais fortes do que a própria vida. Amores que não são contos de fada, mas verdadeiros, genuínos e cúmplices. Vidas que se cruzam na ironia do destino, no seu humor característico de unir duas pessoas, num acaso, para a eternidade. E na memória fica essa gargalhada, esse trocar de olhares, inocentes, ignorantes do destino. Fica a memória da sensação de conforto e casa que esse amor é capaz de proporcionar.

Nota: Num momento em que os livros não obtiveram o estatuto de bem essencial, penso no que esta obra significou para mim. A sua leitura foi terapêutica, encontrei na sua história um porto de abrigo em noites de incertezas e angústias; encontrei neste livro uma cúmplice de sonhos, de vidas e uma confidente de longos silêncios. Na minha vida os livros têm um papel muito maior do que contar apenas uma história; são amigos. E nestes dias precisamos muito dos nossos amigos mais chegados ao nosso lado. Que venham eles!

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