Ser o que se é.

Diziam que tinha uma esfregona na cabeça por ter cabelo encaracolado. A minha mãe foi chamada à escola porque eu tinha muitos pelos e a professora recomendou-lhe que eu fizesse a depilação. Até os pelos dos braços tirei. Na escola fui chamada de “marrona” e de “nerd” por gostar de ler. Diziam que eu não tinha jeito para línguas, por não saber inglês. Tive uma adaptação difícil na escola por ter passado a infância em Aveiro, onde nasci, e as minhas colegas metiam-me de parte. Se estivesse ao lado de um amigo ou de uma amiga loira diziam que parecíamos “leite achocolatado”.

Hoje adoro o meu cabelo e não quero saber se a depilação não está perfeita. Não faço questão de ter amigos em Ovar ou noutro sítio, porque tenho amigos espalhados pelo mundo. Adoro ser “nerd” e nunca abdiquei da minha paixão pela leitura. Hoje falo inglês, mesmo com erros, porque o importante é comunicar. Prefiro leite com café.

Há quem diga que pareço hippie, outros dizem que sou demasiado “requintada” para as tatuagens que tenho: visto-me e uso o que me faz sentir bem. Quando trabalhei numa loja, numa conversa com um cliente ouvi que tinha demasiados estudos para aquele tipo de trabalho: já trabalhei em cafetaria, restauração e já fui lojista; já trabalhei na suposta “área” e fui mais feliz a defender os direitos humanos na rua e a carregar baldes de cimento.

Quando era pequena e afirmei que era feminista, ouvi como resposta que isso significava que gostava de mulheres. E daí, se gostasse? Posso descobrir que tenho uma sexualidade diferente anos mais tarde. Afirmei que não acreditava em Deus, fui considerada de ateia e insultada. Por ser mulher ouço piropos na rua, sou abordada e ando agarrada ao telemóvel e às chaves de casa quando tenho de andar sozinha à noite na rua, porque tenho medo. Um dia um grupo de quatro homens parou para me abordar enquanto eu esperava pela minha mãe, tinha 14 anos. Desde esse momento percebi que para as mulheres a vida é diferente.

Após os atentados a 13 de novembro, em Paris, saí de casa em Coimbra para tomar café e, por estar com um kimono de inverno e ter um físico que foge ao estereotipo da típica portuguesa, eu e os meus amigos fomos chamados de assassinos e o meu amigo foi esmurrado na cara pelo homem que nos insultou. Mesmo que fossemos árabes, não éramos assassinos. À saída do aeroporto em Inglaterra uma polícia – depois de ter já passado o controlo de fronteiras –, questionou-me a minha nacionalidade, o que estava a fazer no país dela, se iria ficar muito tempo no país e onde vivia. Também não pareço com as inglesas e o pós-Brexit permitiu alguns abusos por parte das autoridades e da população contra os migrantes. Os migrantes que trabalham e descontam no país.

Acredito que estas histórias sejam parecidas e até iguais a muitas de outras pessoas, porque o ser humano estranha tudo o que fuja à normalidade e apreende ideias desde criança que, por vezes, são limitadoras e que podem culminar em intolerância. Pior de que desconhecer a diferença é não querer aprender sobre as diferenças. Porque é mais fácil pertencer à norma e andar com “a manada”. O julgamento perante os outros faz parte de cada ser humano – eu incluída –, mas a responsabilidade de cada um é aprender a saber aceitar as diferenças e aprender a julgar menos a cada dia que passa. 

Nós somos cidadãos do mundo e é preciso abraçar as diferenças e lutar pela igualdade, sempre. Quer seja “de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação” (Art. 2º da Declaração Universal dos Direitos Humanos). Ser contra alguém por alguma destas questões é vedar-lhe a liberdade e ninguém devia ter esse poder sobre ninguém. Ser-se livre é poder ser o que se quiser sem julgamentos ou impedimentos, sem injúrias, sem medo de se ser o que se é. 

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